sexta-feira, 15 de abril de 2011

Saudades do que não existe mais...



"De todo amor que eu tenho, metade foi tu quem me deu(...) sorrindo e fazendo o meu  eu.(...) Se queres partir, ir embora, me olha daonde estiver, que eu vou te mostrar que eu to pronta, me colha madura do pé." Ouvi outro dia estas palavras adocicadas por uma voz de veludo. Trata-se de uma homenagem de uma intérprete à sua ama. Parei para escutar e a voz, as palavras foram aos poucos me arrebatando para o mundo das pessoas queridas que vamos perdendo aos poucos. Minha avó morreu há mais de quinze anos e minha mãe traz no rosto as marcas expressivas da saudade de quem ainda revive os instantes de ternura em torno do fogão á lenha e o colo da infância. Eu trago comigo pedaços de meu pai que foram -se incrustando no peito tal qual diamante inquebrável, a me acompanhar em suas lembranças nas coisas que faço. Um pouco do olhar saudoso das coisas que amamos permanecem conosco e este tempo em que nos lembramos não pode ser contabilizado com a mesma agressividade dos segundos que esvaem-se na ampulheta temporal. E isso nos faz tão bem. Essa tristeza crepuscular que nos acompanha, tal qual um poeta que disse uma vez, quem foi que nos cativou de tal modo a termos olhos de despedida em tudo o que fazemos? Somos eternos "despedidores". Nossos dias vão fenecendo com o passar dos anos e nos resta uma esperança (ou esperança nenhuma) de que um dia possamos retornar para junto daqueles que amamos. Aprecio a filosofia budista de estilo de vida. Mas não poderia me privar de conversas altas ou festas no final de semana. Gosto de saber que, se eu não tiver muito tempo de realizar tudo o que desejo nessa vida, haverão outras. Acho interessante a solidariedade dos evangélicos, mas não estou disposto a chamar todos á minha volta de irmãos, afinal, até hoje a única mulher que recordo a parir filhos em escalas de milhares foi Eva, o que provavelmente deve ter algo a ver com sua constituição (o barro deve ter algum ingrediente afrodisíaco para o super-esperma de Adão e como já se sabe, pararam há muitos séculos a produção em série de mulheres de barro).Aos católicos admiro e muito, mas tal como as outras faces de pintar o rosto de Cristo, ás vezes equivocam-se em fazer crer pela repetição dos locais de devoção que talvez Deus esteja somente ali. O meu Deus não existiria, pois ele até que nem é tão forte. Um Deus quase humano que chora comigo quando estou triste, o Deus de Alberto Caeiro que me mostra quão bonitas as pedras podem ser quando as temos nas mãos e que me abraça de vez em quando. Perguntaram por que ainda sorrio. Não sei bem . "A rosa não tem porquês, floresce porque floresce", disse uma vez Angelus Silésius. Ás vezes acho que se eu parar para pensar no porquê de sorrir, paro imediatamente. Algumas coisas nos entristecem e muito frequentemente sem que percebamos. O que seria de nós sem  socorro das coisas que não existem. As pessoas palpáveis, vivas, nos fazem de vez em quando sentir saudade das que já se foram.  Por estarem as segundas repletas de sorrisos eternalizados em instantes que jamais se repetirão. De vez em quando dá uma vontade de dormir e sonhar com o mundo em que as pessoas não nos deixam com o passar dos anos. Pode ser apenas devaneio...Enquanto isso, vamos amadurecendo com  a saudade e a distância intransponíveis até que fiquemos prontos para colher do pé de que fomos plantados. Espero que haja tempo para o brote e que os pássaros tenham tempo de trazer a semente de  novos dias para os que virão depois de nós. E que possamos ter alguém para olhar para o nosso jardim com olhos de saudades...

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