segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

sobre festas e desligamentos...

Não sei se vou ser coerente. Aqui vai mais um texto para a coletânea dos que não se encaixam ao que se esperam que eu escreva, depois de tantos textos existencialistas..Acordei com uma vontade de sair. Não, esqueçam a ideia absurda de fugir. Quero apenas sair para dançar. Não que eu saiba dançar muito bem. Mas sentir a dança em meu corpo e beber um pouco faz bem. Ás vezes acordo um pouco desligado e com muita vontade de ouvir música a um volume que deixaria a vizinha com  problemas de audição acreditar que está escutando absolutamente bem. Preciso de companhia. Eu sozinho não basta. Que tal se desligar um pouco de seu cotidiano, esquecer um pouco o quão chatas nossas rotinas podem ser e encarnar de vez o adolescente que existe em você. Não tem idade. Não precisa saber dançar. Só sentir a música.Os risos, a respiração ofegante. Vamos nessa. As luzes não vêm de dentro não, elas explodem da pista em direção a você. Para dizer que você deve aproveitar ao máximo.Dance. Deixe-se levar. O barulho pode parecer terminar com as vozes que você trouxe de fora. Mas é para isso mesmo. Ali é outro lugar. Chame de válvula de escape ou o que for. Palavras não importam. A diversão é o limite e os amigos que você levar (ou que te convencerem a ir) servirão para mostrar o quanto vale a pena estar ali. Podemos até não ter carro mas quando chegarmos, todos irão perceber. Vista sua melhor roupa, a noite vai ser nossa. Cale suas mais profundas exclamações de reprovação sobre um lugar aonde as pessoas se excedem e praticam loucuras. É mais que isso. A música é envolvente, os risos são constantes, é um mundo a parte. Não estou defendendo as baladas como um estilo de vida. Não é isso. Cada um procura o lugar que equivale às músicas que suprem os desejos de sua alma. Amo violinos e pianos, mas hoje eu quero mesmo é dançar e não pensar em nada.Pra isso servem os "acordes eletrônicos". Precisava escrever sobre isso. As pessoas que me conhecem sabem que parte de mim ama também sair. Não somente devaneios e poesias sobre os cacos que me formam. De vez em quando um desses pedaços me lembra que é hora de comemorar algo que nem sei  o que é. Liguem a música no mais alto volume. Hoje quero me desligar de todo o resto.Preciso ir. Aporta vai se abrir. Quando ela tiver de novo aberta saio e volto para o mundo de sempre, e para os meus devaneios. Sem ressaca, espero.


sobre corpos e chamas ardentes

Dois corpos se atraem sem explicação alguma e falam entre si antes que a boca possa proferir qualquer coisa. As impressões já foram suficientes para que, sem falar ou ouvir o som da tua voz, eu me sentisse arrebatado para o mundo das paixões ardentes.Quando você diz meu nome eu enlouqueço. Sedução é mais ou menos isso. Um nome que não sabemos, um calor vindo de dentro. Não confundir com amor. O amor pode vir depois, que isso de sentir-se seduzido nós acalmamos de outra forma. O amor é para depois de ter os corpos saciados.Ou nem isso, já que a sedução é um arder em busca da realização do ego, acho que nem tem muito a ver com passar mais tempo com o objeto de desejo, senão não seria de desejo, seria de realização. E vemos nosso nome nos olhos da outra pessoa. Um nome que ela nem sabe, mas que resume a coreografia de nossos atos ao aproximar os olhares e carícias. Bem, não sei dizer se a carícia neste caso é mesmo carícia já que sugere ações avassaladoras para além do instante.Podemos até confundir com amor, (pode até ser que os deuses do amor nos presenteiem com um após o coito), mas estaremos é voando alto, levitando ao sabor de nossos desejos até que sejam supridos. E ouvimos nosso nome, ainda que a outra pessoa  não profira dizer algum. Eu até poderia dizer o que vai acontecer, mas não sei. Quando os olhares se encontram e os corpos suspiram, resta ao acaso unir ou separar.Aquosamente seduzidos (a água é sim elemento sedutor, quer coisa mais excitante que um corpo molhado?!), vamos nos entregando e sem saber estamos nus. Madeiras em mãos na lareira das subliminaridades, acendemos o fogo e nos atiramos nele sem receio. É você quem acende o fogo. E sou eu quem te enlouqueço.Depois disso apenas suor. Desejos saciados, dormimos abraçados. Pela manhã, você não está mais na cama. Olho para os lados. Percebo que nunca te conheci, que a linguagem de meu corpo apenas me confundiu.Nunca nos conhecemos além de uns poucos olhares. O teu agora está mudo, não diz mais nome algum. Terei me enganado?! Resta apenas o vazio. Isso de sentir-se seduzido e inflamado por paixões deixa uma sensação estranha. A de acordar no outro dia com água silenciosamente escorrendo por cima de nós...


domingo, 26 de dezembro de 2010

Sobre fugas e (des) encontros...

Fugir. Eis uma palavra forte. Fugir dos pessimistas, de uma vida que não se esperou, de algo que aflige e vai devorando as esperanças de acreditar nos mais próximos. Fugir do preconceito geral que nos empurra para o conformismo de ser como todas as outras pessoas. Fugir num raio de sol (sem virar churrasco, claro) ou em algo tão absurdo que não possa ser suportado. Fugir para dentro. Eis o lugar. Queríamos poder fugir do ódio. De um mundo desnecessariamente cruel. Sua vida tem um intervalo tênue entre o instante em que você a controla e esta toma as rédeas. Somos filhos do acaso de ações que não sabemos explicar. Acontecimentos que desafiam as leis da lógica. Simplesmente acontecem sem nosso consentimento. Nos protegem ou nos causam aversão, mas são frutos do puro acaso... De vez em quando conheço partes tão significativas de mim fora. Refletidas num espelho vi algum tempo atrás muitos rostos. Não sabia qual que eu iria escolher.Pra que fugir do passado?! há um futuro que na verdade não existe pois, quando o amanhã chegar, vamos ver que já é hoje. Quando as mentiras se tornarem verdades...Aquelas mentiras que ouvimos desde cedo sem questionar e que prendem em gaiolas os pássaros para poder dissecar sua pele metamorfoseada em sapo medíocre. De vez em quando preferimos coachar verdades estabelecidas que alçar voo. Nesta hora, miro naqueles muitos reflexos de minha alma, que não são uma coisa só. Engana-se quem pensa o contrário, (tudo bem, é só um palpite, como todo o resto de nossas certezas). Somos muitos em um. E fujo. E corro sem direção. Um dos rostos me observa. Olha no fundo dos meus olhos.Descobri que quando não souber o que fazer posso correr para aquela imagem, algo que já fui e esqueci a tempo. A única verdade que sei que possuo é a verdade do amor. Corro o mais rápido que eu consigo. O mundo gira rápido. As coisas e pessoas e situações correm à minha volta. E caio desfalecido. Nem espelho, nem rostos, nem amor,  nem nada. Resta apenas o vazio, não há o que fazer. Adormeço. Acordo aos poucos num lugar que nem sei onde fica. Estou dentro de mim mesmo. Todas as coisas que amei estão ali. E eu me vejo então correndo devagar. E chegando até mim. Lentamente um abraço e os olhos marejados. E descubro que não preciso correr. Eu estive sempre ali, além dos reflexos que me constituem, sendo ao mesmo tempo muitas coisas e coisa nenhuma...Os espelhos transformaram-se nas cachoeiras de que sou formado. E unidos às areias, ventos e sóis que vivem em mim me arrebatam para dentro de outro eu. Quando houver descoberto minha essência, terei para onde fugir. Tomara que demore muito, para eu então caminhar devagar sem rumo e me encontrar quando achar que está tudo perdido. Para vir até mim, quando todas as esperanças fenecerem... E terei aprendido a amar para estender o significado do sentimento que encontrei ao maior número de pessoas que eu encontrar pelo caminho...


sábado, 25 de dezembro de 2010

Não quero a alegria de dentes escancarados...

Nasci. Coisa mais triste essa de ser puxado de dentro de um lugar aconchegante para outro lugar, o qual nem temos a ideia do que seja. Somos literalmente arrastados para o mundo que chamávamos real. Os outros ainda não retornaram para dizer como é. Só saberíamos quando chegássemos lá.E de repente, pronto, aquele clarão nos olhos e um homem de branco nos tapeia de leve. Só nos resta chorar. Nascemos irmãos da tristeza. Irmãos da dor. Nossos sentidos  se deixariam levar por ela durante algum tempo, até nossas alegrias seriam tristes por causa de sua efemeridade.Nossos olhares se confundiriam com os sorrisos até percebermos que a tristeza poderia significar algo maior. Como não compreendíamos o fato de sermos tão tristes sem cair em depressão, criamos a constatação de que alegria deveria ser eterna, sorrisos que estendem seus braços para a eternidade. Então, alienamos nossa tristeza, desaprendemos aos poucos a arte de nos comover com a beleza. Tudo o que é belo é assim, um pouco triste por não podermos prolongar o instante tempo afora. Perdemos a arte de reconhecer os cacos que nos formam, porque passamos a achar que éramos insubstituíveis, únicos, completos. E aumentava cada vez mais nossa tristeza. Um dia nos encontramos em outro olhar, um rosto que nos mirava desafiador. Ele repetia nossos gestos e nossos anseios adivinhava. Um clarão de luz se fez e fomos puxados para outro mundo que não reconhecíamos como real. E voltamos para um lugar aconchegante. Será isso o reverso do nascer?! Voltar a encontrar a verdadeira tristeza crepuscular de nossa essência?! Não quero a alegria dos palhaços. São atores, seres tristes enclausurados numa aparente arte do riso. Certos estão os maquiadores quando pintam no rosto do palhaço um resquício de lágrima. Quero a alegria vinda do silêncio, sem dentes escancarados, duradoura, que pode não levar mais que alguns dias,mas sobrevive aos instantes de riso fingido. Quero um amanhecer leve e suave e uma gota de orvalho banhada de sangue em meu rosto, para ser quem eu deveria e lembrar de que eu fui, antes daquele clarão de luz que me cegou os olhos, o corpo e a alma...


quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

uma homenagem aos meus amigos

Um dia nossos filhos olharão para as fotos que tiramos e verão a essência daquilo quue fomos. Algumas pessoas sorrindo haverão em cada lugar e seremos arrebatados para o lugar aonde as coisas não existem. Nossa memória nos jogará para o abismo de nossas lembranças e então perceberemos quanto tempo se passou. Ouviremos melodias de terras distantes e chorros também. As lágrimas e os sorrisos confundidos na voz embargada de quem tenta reviver os instantes que jamais retornarão. E tentaremos explicar. As palavras não virão. O olhar distante noutro mundo, habitado pelas coisas que amamos e que fizeram parte de nós. E sentiremos saudades. Profundas lembranças de feridas abertas, algumas cicatrizadas, outras não. Recordaremos as caminhadas de madrugada. E os silêncios quase escancarados de quem soube entender que não se pode estar sempre por cima. E os abraços ao amanhecer. e todas as vezes que assistimos ao pôr-do sol (e se nunca o houvermos assistido, a saudade de um instante que poderia ter sido). Lembraremos das vezes que fomos confundidos com outras pessoas. Das vezes que não nos entenderam. Dos olhares que diziam mais que as palavras proferidas. Das coisas que não fizemos. Das coisas que relutamos em fazer. Das misérias que assistimos. Da solidão que nos abraçou nas noites frias de inverno enquanto procurávamos desesperadamente escutar uma música que falasse por nós. Dos livros que lemos. Daqueles que gostaríamos de ter lido. Das loucuras que realizamos. Das que não contaríamos para ninguém, nem sob pena de morte. Dos vazios que a vida deixou aos poucos. De como a chuva insistia em surgir em dias que se desejava caminhar pelas ruas sem destino. Das vezes que nos encontramos numa caminhada de chuva, das vezes que a chuva estava dentro de nós. Dos anjos que apareceram para estar ao lado e te colocar no colo quando quisesse descansar.De como uma simples conversa num momento aleatório mudou seu modo de ver as coisas. De como você s sentiu vazio e do nada alguém o preencheu sem que fizesse nada para isso, bastou apenas que existisse. Mas os anos terão passado as pessoas não estarão ali, muitas terão tomado seu rumo por caminhos que não foram os mesmos que os seus, nem proximos. Restarão apenas uns poucos, e você olhará para as fotos nas mãos de seus filhos e dirá: Foram meus amigos. Com eles tive os melhores anos e minha vida. A eles devo o que sou. Ao grande mosaico de minhas relações dedico este texto. Um pedaço de cada um, e cada instante que estive com eles fez com que a vida valesse cada instante. Se hoje estou aqui é porque valeu muito a pena ter os conhecido. Se tivessee que viver minha vida novamente, trataria de percorrer os mesmos caminhos, encontraria as mesmas pessoas e viveria com elas todo o tempo necessário e um pouco mais. Sabe o que eu estou fazendo aqui, lamentando agradecimentos, chorando alegrias, por algo que sei que um dia irei perder pelo tempo ou circunstancia. Um dia,  meus amigos, espero que entendam o quanto significaram para mim e que sem vocês minha vida se reduziria a um emaranhado de cacos sem sentido algum... Obrigado por me fazer sentir e ser parte de mim mesmo e de minha essência ao me juntar com os cacos que me formam...



quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

sobre diários e cacos que formam a alma de quem escreve



O diário é um livro de folhas em branco sem significado algum. O dono é que vai impregnar nele os sentidos cotidianos que merecem ficar na lembrança. Todo diário é uma junção de cacos, de contornos e impressões que pertence aquele que o escreve. Isso mesmo. Os pedaços que formam o emaranhado de cada instante, de cada lugar ali impresso, gravado com o sangue de quem redigiu. Mas redigir é tarefa penosa. Lembra que devemos nos despir em frente a um templo sagrado do qual somente nós teremos a chave. Significa reconhecer-se nos espelhos daquilo que se escreveu. Nos insterstícios das palavras, profundamente exaurimos nossos defeitos, revelamos quem somos e transubstanciamos por completo a matéria de que somos formados. Por isso que encontrar um diário fechado e abri-lo significa uma invasão sem precedentes. Um estupro de nossas ideias mais íntimas e uma violência sem desculpa. É impossível conhecer uma pessoa diretamente. Mas ao encontrar o que ela guarda, podemos traçar um perfil, que será único, pois cada pessoa guarda coisas que para si são essenciais. Um diário normalmente é secreto porque é preciso esconder a alma na sua nudez. Quem lê um diário descobre a alma do dono. É um espelho que guarda minhas imagens passadas. Os sentimentos, as sensações, os desejos e os anseios que em mim palpitam. Nossos diários são as imagens que desejamos guardar e que queremos que sobrevivam ali, quietinhas, eternizadas no papel, aonde podemos retornar sempre que tivermos vontade. Ali estão as vozes e melodias que me inspiraram e me fizeram sorrir ou chorar. Meus suspiros, minhas dores e o pulsar de um coração num mundo sem coração, minhas esperanças e canções. E só competem a quem escreve, nada mais. Fechando-se as folhas, para o mundo lá fora, elas retomam sua brancura original.  

espelhos, cacos e contornos: Consultório bíblico



Consultório bíblico

Laura Schlessinger é uma conhecida locutora de rádio nos Estados Unidos. Ela tem desses programas interativos que dá respostas e conselhos aos ouvintes que a chamam ao telefone. Recentemente, perguntada sobre a homossexualidade, a locutora disse que se trata de uma abominação, pois assim afirma a bíblia no livro do Levítico 18:22. Um ouvinte então lhe escreveu uma carta que vou transcrever:   "Querida dra. Laura: Muito obrigado por se esforçar tanto para educar as pessoas segundo a lei de Deus. Eu mesmo tenho aprendido muito do seu programa de rádio e desejo compartilhar meus conhecimentos com o maior número de pessoas possível. Por exemplo, quando alguém se põe a defender o estilo homossexual de vida,eu me limito a lembrar-lhe que o livro do Levítico, no capítulo 18, versículo 22, estabelece claramente que a homossexualidade é uma abominação. E ponto final...Mas, de qualquer forma, necessito de alguns conselhos adicionais de sua parte a respeito de outras leis bíblicas concretamente e sobre a forma de cumprí-las:


Gostaria de vender minha filha como serva, tal como indica o livro do Êxodo, 21:7. Nos tempos em que vivemos, na sua opinião, qual seria o preço adequado?


O livro de Levítico 25:44 estabelece que posso possuir escravos, tanto homens quanto mulheres, desde que sejam adquiridos de países vizinhos. Um amigo meu afirma que isso só se aplica aos mexicanos, mas não aos canadenses. Será que a senhora pode esclarecer este ponto? Por que não posso possuir canadenses?


Sei que não estou autorizado a ter qualquer contato com mulher alguma no seu período de impureza menstrual (Levítico 18:19, 20:18). O problema que se me coloca é o seguinte: como posso saber se as mulheres estão menstruadas ou não?  Tenho tentado perguntar-lhes, mas muitas mulheres são tímidas e outras se sentem ofendidas.


Tenho um vizinho que insiste em trabalhar no sábado. O livro de Êxodo35:2 claramente estabelece que quem trabalha nos sábados deve receber a pena de morte. Isso quer dizer que eu pessoalmente, sou obrigado a matá-lo? Será que a senhora poderia, de alguma maneira, aliviar-me dessa obrigação aborrecida?


No livro do Levítico está estabelecido que uma pessoa não pode se aproximar do altar de Deus se tiver algum defeito na vista. Preciso confessar que eu preciso de óculos para ver. Mina acuidade visual tem de ser 100% para que eu me aproxime do altar de Deus? Será que se pode abrandar um pouco essa exigência?


A maioria dos meus amigos homens tem o cabelo bem cortado, muito embora isso esteja claramente proibido em Levítico 19:27. Como é que eles devem morrer?


Eu sei, graças a Levítico 11:6-8, que quem tocar a pele de um porco morto fica impuro. Acontece que adoro jogar futebol americano, cujas bolas são feitas de pele de porco. Será que me será permitido continuar a jogar futebol americano se usar luvas?


Meu tio tem uma granja. Deixa de cumprir o que diz Levítico 19:19, pois planta dois tipos diferentes de sementes no mesmo campo, e também deixa de cumprira sua mulher, que usa roupas de dois tecidos diferentes, a saber, algodão e poliéster. Além disso, ele passa o dia proferindo blasfêmias e maldizendo. Será que é necessário levar a cabo o complicado procedimento de reunir todas as pessoas da vila para apedrejá-los? Não poderíamos adotar um procedimento mais simples, qual seja, o de queimá-los numa reunião privada, como se faz com um homem que dorme com sua sogra, ou uma mulher que dorme com o seu sogro (Levítico 20:14). Sei que a senhora estudou esses assuntos com grande profundidade de forma que confio plenamente na sua ajuda. Obrigado de novo por recordar-nos que a palavra de Deus é eterna e imutável.."

sobre as (in)verdades e as convicções

Ouvi dizer que homossexualismo é doença. Em pleno século XXI. E eu que acreditava que doenças não fizessem as pessoas sorrirem. Existem pessoas que concordam  que a felicidade não tem rótulo. Algumas das piores aberrações não tem nada a ver com sexo. O diabo são as convicções. As maiores atrocidades da história da humanidade, religiosas e políticas, foram cometidas por seres que estavam repletos de certezas, que não tinham dúvidas sobre a verdade dos seus pensamentos.  Não quero dizer o que penso sobre isso. É quase inútil escancarar as portas da indignação a ouvidos fechados pela ignorância. Não me importo em saber como os outros se sentem. Desejo apenas que cada um encontre a felicidade a seu modo. Só não tolero que digam que Deus acha isso uma abominação. Quem são essas pessoas para entender sobre o que Deus acha. Eu  realmente não sou o mais indicado para discutir, abandonei há muito esse deus moldado de acordo com a face perniciosa de alguns. O meu deus é diferente, deseja apenas a felicidade e sendo somente amor, não ameaça continuamente os seus com a imagem de um lugar em que serão torturados, caso não ajam de acordo com suas frases imperativas, aonde resta muito pouco do essencialmente divino que deveria ter. Não sou recipiente vazio no qual devam ser depositadas as certezas dos outros. Prefiro semear as incertezas. As dúvidas. Aprendi que todas as nossas mais íntimas certezas não passam de meros palpites. Então, para que discutir sobre algo que não podemos provar. Ah, mas está ali, nas escrituras, dizem. Realmente, não entendo como um livro tão rico possa trazer algo tão hediondo. Não leste então?, me perguntarão. Amo alguns textos das sagradas escrituras, encontro metáforas riquíssimas de um tempo em que a ficção resolvia as dúvidas e elucidava os mistérios. Amante da ficção que sou, aprecio a arte de ler vagarosamente e não abandono o livro só por conter alguns argumentos que não estou de acordo. Procuro apenas entender o porquê de estarem ali. Não pretendo aqui elaborar um artigo teológico, deus me livre disso. Apenas outro dia procurando algo que não encontrei entre minhas anotações me deparei com este texto que eu havia copiado anos atrás e que agora transcrevo para somar-se a minha indignação e desconstruir algumas certezas sobre as manipulações e lavagens cerebrais que estão por aí se disseminando sem que possam os ouvidos inocentes defender-se de suas bárbaries, restando apenas a resignação de ideias incontestáveis..
(continua na próxima postagem)



quando castram a criatividade...

Uma única caneta vindo em direção ao texto que levou um tempo considerável para vir à luz e mais nada. Apenas lágrimas sobre o papel. As palavras foram arrancadas de sua intimidade e construção e banidas dos ouvidos daquela que leu. Apenas um olhar sádico e um sorriso sinistro, prestes a colocar por terra todas as boas intenções de um texto que parecia puro e que agora jaz pelo chão aos pedaços... Não seduziu os ouvidos protocolares de quem o leu. Não chegou nos vazios virginais dos ouvidos que relutavam em enamorar-se da poesia ali contida. Na verdade, nem tentou entender. Não,deveria ser séria, essas coisas de escrever de modo poético facilitam muito. Tem que escrever difícil, que é para menos pessoas entenderem, que é assim mesmo que se adquire respeito. Tem que falar difícil, se conseguir ser o mais frio possível, melhor. E você que escreve não existe, quero que diga o que eu espero escutar, se não for assim, nada feito, teu texto será reduzido a um resultado medíocre. Ninguém o lerá, é para ser escondido, não atingiu a nota necessária para ser um bom texto. Fiquei comovido quando ela me mostrou seu texto. A mim parecia tão bom...Mas, ao que tudo indica, não tenho capacidade necessária para avaliar, falta-me um papel dizendo que estou habilitado... Tocou-me fundo aquele texto. Ela ouviu que os textos nem devem servir para isso, de comover (devem apenas dizer pouco, engaiolar as ideias pré-estabelecidas), senão ninguém respeita. Criatividade, só se estiver bem escondida. Fiquei com pena, pensei que meus textos teriam o mesmo destino. Jamais passaria a uma avaliação daquelas. Outro dia um rapaz mostrava suas notas orgulhoso, trazia em mãos um boletim cheio de 10 escancarados. Perguntou o que eu achava. Falei que ficava com pena dele. Ao que ele estranhou. Passei minha vida inteira buscando boas notas, disse-me ele. Falei: é pena, você aprendeu a moldar o que diz com aquilo que aprendeu, mas e o teu rosto? onde está? Tinha tornado-se pessoa sem rosto, sem medidas, sem voz, tornou-se apto a repetir o que lhe ensinavam. Desaprendeu a viver no mundo das pessoas normais. Não sabia lidar com a frustração de uma média menor que nove. Nunca mais o vi. Deve ter se mudado para o país onde as pessoas buscam continuamente serem aprovadas por alguém mais capaz que elas...e se esquecem das coisas para as quais não se pode tecer avaliações. Prefiro o anoitecer, a brisa da manhã, o barulho das ondas. Dessas, ainda ninguém pode arrancar a poesia contida nas entrelinhas de seus escritos...


segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

sobre árvores e meninos saciados...

Ele aproximou-se de um restaurante e encontrou um menino em frente à porta. O pequeno tinha suas mãos estendidas e o olhar sofrido. Teve pena dele. Parecia realmente precisar de ajuda. Convidou-o para entrar consigo. O menino olhou desconfiado. Nunca o haviam levado para almoçar. E bem naquela hora do dia. Mas os pratos lá dentro pareciam deliciosos. Seguiu aquele senhor que se apresentou apenas como um poeta. Não era dali. O resto não diria. Iria sumir assim como tinha aparecido. Por via das dúvidas, entrou, que preocupações são coisas de quem já saciou a fome, que é a preocupação mais genuína. Entrou no restaurante. Deslumbrou-se com os pratos que o poeta pediu. Em cada borda, em cada refeição havia algo que ele nunca tinha visto antes e que não sabia explicar. Correu os olhos pelo lugar. Nunca tinha estado ali, do contrário, certamente lembraria. Os pratos foram vindo e o poeta apenas observava. De vez em quando ,ele abria os lábios para dizer coisas que o menino nunca havia escutado mas que o arreabatavam para um mundo desconhecido. Terminaram de comer. Iam sair e o menino pediu-lhe que ficasse junto, porque precisava voltar outro dia. O poeta apenas sorriu. E de repente, em frente a primeira fonte do chafariz mais próximo, ele sumiu. O menino olhou para os lados, não mais o encontrou. Restou apenas sobre os seus pés um prato, parecido com os outros, que o menino sabia ter sido deixado ali de propósito. Chamava-se "O semeador de estrelas". Sabia que iria devorá-lo até o fim. Mas teve uma ideia melhor. Saiu pelas ruas á procura de outro menino que estivesse de mãos estendidas. Se apresentaria como discípulo do poeta e lhe mostraria o mesmo restaurante. Um dos pratos, ele já trazia em maõs. Com certeza encontraria muitos meninos tão famintos quanto ele. E haveria de apresentar o alimento que lhe fora oferecido. E lhe mostraria outros mundos, esfacelando suas tristezas e colocando-as na palma das mãos. Tornou-se um semeador de estrelas. Encontrou muitos meninos sedentos. Até perceber que teria que partir e à sombra da primeira árvore florida despediu-se. Todos os anos muitas crianças vem assentar-se à sua sombra. De vez em quando de suas raízes brotam algumas páginas com alguns textos, coisas simples, Clarice, Drummond, Quintana, Cecilia, Vinícius, Adélia e Manoel, todos aparecem nos pedaços de seus galhos. E uma melodia ora triste, ora alegre de vez em quando surge com a brisa. Não se sabe de onde vem, mas para onde vai as crianças não tem mais dúvida. Para o mundo das coisas que não existem, para voltarem repletas de um colorido todo especial. O restaurante? Fica bem em frente, para lembrar o dia em que o menino encontrou o poeta. De vez em quando um tal de Alberto Caeiro aparece por ali. Não pede prato algum, apenas contempla a árvore  da janela e sorri. Não se sabe o que estará pensando. E se olharmos com bastante atenção, toda vez que ele surge, uns pássaros que ninguém conhece de umas penas exuberantes e cheias de cores vêm fazer ninho nos galhos que brotam em cada intervalo de seu sorriso...


para descobrir a perfeição...

Existem detalhes que nos são tão significativos. O insuportável peso da cabeça de um alfinete tem mesmo que ser assim, do jeito que é. Mesmo daquele tamanho ele segura um cartaz fixado em um mural. Improvisa consertos de costura, simula resultados em reparos futuros. Apenas um detalhe pode nos acompanhar pela vida inteira. E podemos não nos esquecer do instante revivendo a cada momento um pedaço do que sentimos. As marcas que trazemos no rosto revelam nossa idade. Mas podem revelar também o que vivemos. Um olhar de menino, um brilho suave e profundo que despe a alma de quem o contemplar. E a precisão daquilo apenas que pode conter a cabeça de um alfinete em nossos rostos. Cada contorno, cada definição, cada pedaço tem seu lugar absoluto. Existe de modo único em  nós. As coisas que amamos nos fazem ser  repletos de rios e  cachoeiras. E uma cabana em que se vão raspando as camadas até descobrir quem um dia fomos. O que um dia sentimos. A beleza de uma árvore em flor e a melancolia das folhas do outono e as saudades do ipê florido. Aquela árvore  em que nos assentávamos à sombra quando estávamos cansados. E o modo como a mãe nos chamava para dormir. Os latidos de um cachorro ao longe e o cheiro de terra molhada em dia de chuva. Para nós muitas dessas partes são tecnicamente invisíveis. Somente iremos percebê-las quanddo as houvermos perdido. E quando somos pegos de surpresa, terminamos adivinhando confusos a perfeição. Daquilo que somos. Daquilo que fomos. E deixamos de ser. Para o perceber quando é tarde demais. Somente as marcas daquilo que fomos estampadas em nossos rostos... 

Ainda ousamos reclamar das coisas que nos afligem...

O que está dentro de sua cabeça? Será que não estamos anestesiados após tanta violência? Os tanques de guerra e as bombas estão invadindo nossas mentes e bombardeando nossa compreensão. Com- preender. Junto com o ato de apreender precisamos trazer para junto de nós. Só por que não é a sua família você acha que não  deve se importar? Eles continuam lutando com seus tanques dentro de nossas cabeças e minando nossa humanidade. Aprendemos a "arte" de não se importar mais. E com que maestria o fazemos. Nos acomodamos até em nossas angústias. Perdemos o drama que nos constitui humanos. Perdemos o vínculo com aqueles que sofrem. Para os quais a morte não é a mesma, quando ceifa vidas e priva de sua companhia os que anseiam por ela. Haverá esperança? Haverá paz? Ao final de tudo, nos tornamos zumbis. Nos desligamos de nossa comoção. Não nos tocam os gritos de fome e miséria que relutam em escancarar suas vozes agonizantes. Em nossa cabeça restam apenas o egoísmo e os sentimentos mesquinhos de nossos bens adquiridos.Não me diz respeito. Continuarão morrendo aos milhares. É preciso acordar cedo para trabalhar. Quantos queriam poder pensar assim e agora estão na mira de um fuzil, sem acreditar nisso que chamamos de Deus e que parece não se importar mais. Tanto quanto nós. Até que a morte visite nossas casas. E achamos injusto. Não poderia ter chegado. Há tantos para serem levados, por que eu? por que um dos cacos que me formam? E compreendemos, que o grande silêncio é mais profundo quando nos abraça. E em nossa cabeça ecoam vozes daqueles que já se foram. Pratos estendidos e mãos vazias. Olhares chorosos e bocas em um meio sorriso banhado em lágrimas, esqueletos multiplicados pelo orgulho dos que fingem perceber suas vidas marcadas pelo olhar que esqueceu faz tempo que existem horizontes e novos céus para contemplar. Ao lado, somente verão fuzis e pessoas fenecendo ruídos sem sentido. O leite materno secou, as mãos jazem vazias de sorrisos. Feito animais têm sua dignidade arrancada pela ignorância de uns poucos. Animais alimentando-se da comida que sobrou pelo chão. Um pai carrega no colo um filho com os braços mutilados. O choro de pessoas perdidas daquilo que mais amaram. Que perderam o sentido de uma vida inteira. Apenas o abraço desesperado resta, das mães que ainda podem oferecê-lo. Mãos vazias de compreensão. Olhos repletos de um vazio mortificador. Só lhes resta o choro e o desespero e que a morte seja rápida e certeira. Que o silêncio venha absoluto. Não há o que dizer. Apenas a violência. Em nossas cabeças.Dentro de nossas cabeças.


ao chegar o final de ano...

Nós, seres humanos somos mesmo estranhos. Precisamos de símbolos e períodos palpáveis que nos lembrem que poderíamos ter sido melhores. Agrupamos nossas frustrações para somente agradecer ao final do ano em uma ceia que ultimamente não tem servido para mais nada além de ... entregar presentes e simular que seremos melhores. Afinal de contas, é para isso que o final de ano existe. Para que nos tornemos atores momentâneos. Acreditamos que uma data em especial é causadora de todas as mudanças que já deveríamos ter começado antes. Desejamos que os dias sejam melhores e reunimos a família por um dia. Rimos, bebemos e olhamos para o alto imaginando que os fogos nos tornarão especiais no próximo ano e que a loteria estará à nossa espera assim que o ano novo chegar. Amores, sorte, felicidade, satisfações afloram em pedidos (quase) intermináveis numa ladainha que se repete todas as vezes que estouramos a rolha da garrafa que temos em mãos. Este ano queria que fosse diferente. Gostaria de enfeitar minha alma para esta data especial. Gostaria de estar próximo das coisas que amo. Encontrar alguns amigos e a família que construi durante este ano. Poder agradecer a cada mísero caco que constituiu o mosaico de minhas relações e reproduzir luzes e fogos dentro de mim para então festejar como se deve. Quero um pouco do silêncio para estar diante do vazio da existência que tanto apavora. Devem ser por isso os fogos. Senão não nos sentiríamos tão estranhos após a virada do ano. Parece que de nada valeram os pedidos, os festejos, será apenas mais um ano, é apenas mais uma data, dirão os pessimistas. Pode até ser, mas existe a descoberta de cada dia que nasce.E cada amanhecer nos brinda com suas luzes específicas e caleidoscópicas. Que os cacos de vidro que nos constituem possam estar unidos neste final de ano e que ao menos possamos estar próximos de nós, sem esconder-nos em festas que distraem e fazem esquecer que a vida é algo extraordinariamente belo e que merece ser vivida e festejada, muito além de apenas alguns dias e umas poucas luzes insignificantes... 

domingo, 19 de dezembro de 2010

Pra onde eu for...

Em qualquer lugar que você vá eu estarei próximo. Quando estamos junto sinto sensações que não sei explicar. Uma  coceira no nariz, algo que parte da ponta dos pés em direção ao corpo inteiro. Disse que não falaria mais de amor. Não falo. Pronto. Deixo apenas as palavras falarem por si. E elas querem falar...dos instantes que estou com você. E das horas em que a lua nos faz companhia.De como você está longe e eu me sinto tão próximo. De como as suas mãos deslizam suave pela minha face e os seus contornos e risos me preenchem de um modo indescritível. Estou acordado, por que lembrei que você me faz sentir como uma criança. Me deixa leve com um simples olhar e me completa de modo que eu não me sinto mais apenas eu, me sinto parte de você.   Não importa aonde eu vá , você sempre me fará sorrir. Seu olhar e teus lábios haverão de estar sempre comigo aonde quer  que eu esteja. Pena que é tarde e você não existe mais.Eu poderia ter lhe dito tudo isso, mas agora é tarde demais. Espero um dia poder te dizer o quanto você significou para mim. Enquanto isso, carrego você comigo aonde quer que eu vá...

sobre teias e braços da morte..

Estive pensando sobre a morte. Não há como ignorar. Ela está ali,a cada dia que passa. Passamos a morrer desde o nascimento. O Rubem Alves que é esperto. Sabe dizer o essencial. Falou que em nosso aniversário não fazemos anos. Desfazemos. A idade não é aquela dos anos que já se foram. E não deveríamos sorrir e sim chorar.Realizar um bruxedo em homenagem aos anos que virão. O mais interessante é que os anos que realmente temos ninguém sabe. São constituídos por aqueles que nos foram significativos. E por aqueles que ainda restam por viver. A morte tenho como uma amiga. Que não me venha brusca. Não quero que me arranque deste mundo sem aviso prévio. Que possa desfrutar de certa preparação. Que eu possa estender um ritual, construir um altar com a beleza da asa de um beija-flor e a intensidade das penas em chamas de uma fênix em pleno voo. Se deixarei de existir, quero que as coisas que amo estejam próximas. Que seja um dia calmo, ou chuvoso. E que as cinzas de meu corpo sejam jogadas ao mar para fazer parte das ondas, da poesia contida na leve brisa a brincar com a areia num amor pleno. Que as aves voem como nunca, não por mim, mas para lembrar que as asas carregam um pouco de eternidade consigo. E que as nuvens tracem os desenhos repletos de amores e arrebatamentos. E eu nem terei morrido. A vida pulsará como nunca inebriando aos poucos com seu poder de esquecimento. Não quero que minhas lembranças sobrevivam.Elas irão para o mundo das coisas que não existem para passar a significar algo maior. Que as pessoas e coisas que amei continuem a viver de braços dados com a morte, para que ela lhes seja companheira.E quando for cumprir seu papel, que venha como um abraço suave, em câmera lenta, que aos poucos vem pré-meditando o abismo e o vazio que virão. Não sei o que vem a seguir. De vida eu entendo. E das coisas que faço para deixar um pouco de mim nos lugares que conheci. Não me importa a morte, não receio o seu abraço. O diabo é ter que deixar de existir ...



Andei escrevendo demais sobre as sem razões do amor. Sim as sem razões. Preciso escrever sobre outra coisa que senão os leitores batem em retirada. O amor só é interessante para aqueles que o sentiram. Nem todos esperam um amor. Nem todos realmente carecem sentir essa coisa que nos arrebata e tira os sentidos. Bem disse o Fernando Pessoa: todas as cartas de amor são ridículas. Elas podem não ser para os apaixonados, mas para os que não partilham da mesma experiência... Não sabia que havia tomado uma decisão. As palavras que foram escrevendo por si mesmas. Daqui a pouco me perguntarão se estou apaixonado. Direi que sempre fui e que paixões existem das mais diferentes formas. As coisas que amo vão aos poucos moldando uma certa tolerância com as frustrações. Algo digno de ser (re)escrito. A magia daquilo que escrevo talvez esteja no fato de que não posso esconder-me de mim mesmo. Confesso que amo. A esta pessoa que escreve, primeiramente. Por saber me entender como nenhum outro, por acreditar que os erros são passíveis de contemplação e não de punição. Que as coisas simplesmente (estou utilizando esta palavra com certa frequencia) acontecem e que as brumas e espumas de um mar revolto se encontram num crepúsculo banhado de sóis. Falo muito em crepúsculos. Talvez por acreditar que sofremos de uma tristeza crepuscular a saber que as coisas carregam um grau de finitude intolerável. Ousamos acreditar que aquilo que amamos (outra vez o amor metendo o bedelho) deva ser eterno e intenso. Linguagens, cores e sabores nos trazem a consciência de que vamos sempre nos repetir. É difícil aprisionar os que tem asas. Só não repetem os contornos e nuances  das palavras aqueles que ainda estão a procura. Quando encontramos, é um eterno repetir, para gravar fundo, com ferro quente e amarrar-nos a uma sensação de (in)completude... 


sobre instantes e gotas de orvalho incrustados na aurora de um sorriso




As surpresas nos deixam diferentes após nos trazerem a consciência do inesperado que pulsa e movimenta a vida em nós. Uma vez encontraram algo em comum. Sua paixão por leituras. Amantes das palavras, tornaram-se amantes através do sangue derramado por elas. Nem sabem ao certo quando foi, mas uma mensagem de aniversário simplesmente apareceu na caixa de emails de um, vinda de um lugar desconhecido, acentuado pelas distancias e, de repente, descobriam cacos de si ao longe espalhados, semeados por lugares desconhecidos. Poesias compartilhadas no primeiro olhar.Na primeira impressão, apenas o encontro de dois sorrisos. Depois disso, a mensagem de aniversário desaparecera, deixando apenas o contato de ambos, tão puro, até que... O silêncio pode ser cruel, ficaram um tempo sem se falar. Não havia motivos, as linhas frágeis do amor se tecem de obscuridades. Então um telefone toca. A voz discreta, tímida, se desculpa pela ausência. E o ruído da respiração se revela arrebatador. Uma pequena lágrima brota dos lábios, que chora amores perdidos. Até que um dos amantes aparece na frente do outro. E lhe dá um beijo, e abraça de modo tão intenso que  nada mais  importa. Que os ventos soprem em todas as direções. De vez em quando, acontecem sensações que não sabemos explicar. A música suave toca absoluta e o encontro de duas almas resume apenas o silêncio dos contornos que os une. Nenhuma palavra explicará o que sentem. O sangue tornou-os um só nos verbos da carne e da emoção que os acorda todas as manhãs a lembrar-lhes que estão espelhados numa história delicada repleta de janelas que abrem para outros mundos. Em um destes mundos se refugiarão de todo o resto. E viverão como sempre quiseram. E deixarão de existir, porque a vida sem obstáculos ou adversidades não é vida. Restou-lhes o crepúsculo e a aurora . Os mares que visitam lembraram a pouco numa brisa suave que  podem se (re)encontrar nos pensamentos do outro. Agora ambos vão para a praia. Adormecerão aos poucos com apenas uma lembrança e, no sonho, o olhar de ambos encontrará os vazios do amor preenchidos por um abraço suave e intenso e um beijo beirando a ( i )mortalidade do sentimento que carregam consigo. Sabem que vão acordar e não terão o outro em seus braços, mas de que valem as estrelas se não podemos aspirar seu alcançe. A alma não é pequena e os deuses do amor haverão de lhes fazer companhia quando acordarem, deixando um resquício de riso nos lábios de cada um, gotas de orvalho em seus olhos incrustadas revelarão o instante que se foi e voltarão à suas rotinas até que o telefone toque novamente...


saudades que brotam entre os oceanos


Ela iria viajar. Dali a poucos instantes seguiria numa viagem rumo ao desconhecido. Nunca havia estado lá,mas era uma chance de fazer sua estrela brilhar mais forte. O problema eram os cacos de luzinhas que piscavam e que teria que deixar. Sai para caminhar um pouco. Levar seus pés para caminhar que é o que fazemos quando rumamos a lugar de incertezas. Suas pegadas soavam discretas e indissolúveis. Seu olhar se perdia no horizonte e alguns sorrisos banais a rodeavam. Devia se sentir importante. Sentia-se podada do que lhe era mais caro. Descrever não sabia, queria ir ao mesmo tempo em que queria poder ficar. Toda viagem é uma separação, metáfora do adeus definitivo. Isso ela havia descoberto ali, da maneira mais triste. Visitou os lugares que costumava contemplar e que faziam parte de si. Dali a pouco tempo, estariam jazido na memória das coisas que amou e que lhe fizeram sentido. Até que do nada vieram uns braços em sua direção. Não podia acreditar que eram aqueles que havia conhecido há pouco e que se faziam tão íntimos, tão sinceros, tão... Não sabia explicar como. Tinha vontade de chorar, mas as lágrimas não queriam obedecer.O sorriso tímido resumiu a sensação de estar ali e não queria estar em nenhum outro lugar. Não queria ir a lugar algum. Queria fugir para o mundo aonde as coisas são cristalizadas no efêmero eternalizando o instante. E não o conseguiu. Teve que partir. A partir daí, aquele abraço sempre a acompanha e o olhar e sorriso do guri lhe fazem companhia. Se estão distantes alguns mares além do oceano, a voz de um encontra o sorriso de outro através do poder que as lembranças possuem. Imortalizado o instante, grávido de sensações, apenas resume um sentimento que não se pode explicar. E torna-se tão intenso quanto as coisas que carregam consigo...

(dedicado á Ana Luísa, estando esta em Portugal, mais próxima que as lembranças continuamente trazem para junto de um instante eternizado em um mísero texto...)

quero o amor junto das coisas que não existem...





O mais triste de todos os sentimentos é o amor. Não temos a certeza da correspondência (na verdade nem somos avisados por carta nenhuma de que ele virá). Mas ele chega aos poucos e, sem que percebamos estamos ali, envolvidos numa teia sem volta. Amo histórias de amor. O amor nos tempos de cólera, Romeu e Julieta, Abelardo e Heloísa, A insustentável leveza do ser, Diário de uma paixão, Cartas para Julieta, são todas histórias que nos emocionam pelos amores narrados e pelo sofrimento dos amantes. Descobri uma coisa que aumentou minha tristeza. Nós entramos em contato com as estórias de amor por um motivo em especial. Estórias sim , que a estória não quer ser história, catalogada, fria e exposta como fato consumado, morto, esquecido. Quer ser estória mesmo, que é para ressurgir a todo instante em que é contemplada. Para deixar de existir no mundo real e passar a ser no mundo em que as coisas estão envoltas na mais pura e triste beleza. E por que triste beleza?, dirá você. Ora, porque tristemente constatei que eu assisto para vivenciar um grande amor, leio para ser amante com a intensidade daqueles ali retratados, para viver o que viveram (e aqui uma lufada de vento me bate no rosto). Posso não viver algo tão puro e belo e com tamanha intensidade. Posso passar a vida apenas desejando amar e ser amado. Posso estar distante do amor verdadeiro e daí é que vem a minha tristeza. A de saber que os contornos da ficção podem não ser espelhos fiéis da realidade que está representando. Quero fugir para o mundo onde as coisas não existem. Quem sabe encontre um amor de verdade. Quem sabe as cartas encontrem inspiração e as palavras não embotem ao narrar até que haja, não apenas contemplação de amores plenos, mas que o sentimento seja o de reconhecimento de que o vivido foi eterno enquanto durou e de que a lembrança arrebatou as sensações para o mundo das coisas que não existem, para imortalizar os gestos e carícias e aparecer mais forte a todo instante em que for lido assistido e contemplado...

escreviver no mundo das palavras

Que coisa mais engraçada esta arte do escrevinhador. As palavras se depositando no papel. A dor fingida, a sutileza contida nas entrelinhas, como numa conversa que abre janelas interiores. Como é possível que nossas palavras falem mais de nós do que nossos gestos? Escrevo com sangue, como Nietsche achou que devia ser. Vejo signos modificando os muros da existência e penetro profunda...mente no reino das palavras. Tenho que as observar de perto. Ainda não aprendi a extrair-lhe os significados íntimos. Quando procuro escrever sem cuidado sou criança travessa e elas embaralham-se de tal modo que não consigo mais ir além. Essa coisa indescritível que sentimos ao ler algo que outro escreve até que parece que o autor nos conhece como se houvéssemos sendo descritos em cada linha. Diante de uma boa escritura, nos sentimos despidos de nossa natureza. Alguns autores preferem trazer à vida palavras gritantes, repletas de ruídos, cheias de ecos e vozes. Não sou eu. A pouco tempo descobri que o silêncio também possui ecos e ruídos que envolvem por não estarmos acostumados a eles. Outro dia conversando com um rapaz, ele disse uma coisa que achei curiosa, no mínimo: "existe uma linha tênue entre a sinceridade e a falta de educação, podendo estas se confundirem a qualquer momento". Olha, não sei de onde ele tirou isso. Não deixo de ser sincero ao utilizar sutis encantamentos verbais. Ih, olha só a poesia metendo o bedelho no texto. Sim, as palavras possuem um encanto que não se pode comparar a coisa nenhuma. Depois de ditas, as coisas criam a forma que a imaginação esculpir. Num livro do Eduardo Galeano, li que as histórias em algum lugar são contadas apenas a noite, que onde o sagrado está solto. Escrevo este texto ao dia, que ainda não aprendi a lidar com o sagrado. Sagrado é tudo aquilo que as palavras fazem brotar do texto, trepadeiras e flores que se arrastam em nuvens ora tempestuosas como os impactos que causam ora suaves como uma brisa delicada. Se o encantamento das palavras que escrevo surgirem, que seja na hora da leitura, e que abrace quem as contemplar. E que sejam educadas e impactantes confundindo-se aos contornos e cacos daqueles que as virem. E sumam de vez em quando para que tenham que retornar à busca incessante de construir significados nas palavras do outro e descobrir que essa coisa frágil que chamamos essência pode estar ali mesmo... nos espelhos que dão para mundos (des)conhecidos...



sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

sobre contornos tristes e belos...

Ostra feliz não faz pérola. A perola, para quem não sabe é quando um grão de areia entra no interior da ostra e começa a machucá-la. E para que ela não se machuque com as arestas pontiagudas daquele grão, resolve envolvê-lo com um envólucro protetor que por fim virá a se tornar a pérola. Nós também somos um pouco ostra. De vez em quando um grãozinho de areia nos incomoda. Diferente da ostra que o envolve e acaricia com uma superfície delicada e tenra até que o incômodo se desfaça, resolvemos nos entristecer e desiludir. Não nos ensinaram a conviver com a tristeza. Ela parece ser vilã. Disseram que é preciso estar sempre rindo, que não se deve chorar, que a vida é espetacular e assim por diante. Ora, a vida pode ser bela e triste. Não que isso seja uma coisa ruim. Para os gregos não havia um lugar aonde as tristezas se tornariam alegrias. Drama é coisa séria. Não é para se tornar alegre depois, senão não seria drama. Perguntem como é que os gregos não sucumbiam á depressão. Eles a transformavam em beleza. Há músicas tristes e filmes até que nos fazem ficar tristes. E não há nada de errado nisso. Os artistas assim se tornaram por saber transformar tristeza em arte. Quer algo mais triste que uma mãe segurando o filho desfalecido nos braços sem nada poder fazer?!Tristeza é coisa séria. E seria interresante não subtrair as lágrimas de dor sentida. Elas vão traçando os contornos de nossa alma tanto quanto as nossas alegrias. Podemos não ser artistas, mas ao aprendermos que a vida pode ser triste, ela não deixará de ser bela por isso.Quero defender o direito de ser triste. E que as minhas palavras, ao dizer a que vieram, deixem escorrer de leve uma lágrima de vez em quando ...

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

sobre o (des)prazer da leitura



Haviam lhe oferecido um livro. Ele o observou com desinteresse. Não encontrava naquelas páginas nada que o seduzisse. Desistiu de ler enfim, depois de três páginas. Mas a atividade pedia que lesse o livro inteiro. Pagou para que o fizessem. Estava livre da leitura. E do prazer que sentiria somente anos mais tarde quando, incumbido das férias deparou-se com o mesmo livro a lhe observar. Retira-o da estante. E esse lhe revela outros mundos, diferentes dos que ele já estava habituado. Não havia pensado na leitura como fonte de prazer. Por que antes não havia sido seduzido? Porque haviam uns papéis que enclausuravam o enredo e prendiam a história em teorias de interpretação aptas a depositar numa folha em branco antecedida de perguntas tão vazias quanto "o que o autor quis dizer?". Descobriu que nem o autor sabia muitas vezes o que dizer e que o texto falava por si. Descobriu que a mesma história pode abrir janelas para outras reflexões que não aquelas únicas e irrevogáveis descritas pelo professor. Descobriu que tinha o direito de ler no tempo que quisesse e não num tempo determinado e que as palavras tinham sabor. E sentiu-se triste por não haver aprendido antes. Agora, haviam tantos livros para ler, tantos universos para desbravar, tantas ideias para chamar de suas. A visão fraquejava, as mãos trêmulas não davam mais conta de segurar nas mãos o amante fiel que ia com ele para a cama todas as noites. Para o seu novo amor, não precisava prestar contas. As páginas estavam ali sempre á espera do reencontro. Descobriu que a leitura não podia ser vista como hábito. Os hábitos produzem ações automáticas. Descobriu que a leitura era sinônimo de amor e aprendeu, ainda que tarde (?!), que podia fazer amor todos os dias e as palavras lhe corresponderiam com a fidelidade de quem esperou uma vida inteira para concretizar seu amor. Não é preciso incentivar apenas a leitura. Os livros são amantes incondicionais. Ensinando isso podemos criar amantes que os tratem como íntimos, sem indagações perniciosas ou diminuidoras do efeito que somente uma boa leitura pode proporcionar.  


sobre o desejo de nos sentirmos (in)completos

A mulher havia perdido um seio. Chorando, ela abraçava o marido, sentindo-se mutilada na sua feminilidade e beleza. Como poderia continuar a ser amada pelo marido/? O marido a aperta carinhosamente contra o peito e lhe diz: "De agora em diante, ao abraçar você, o meu peito estará mais perto do seu coração".

As palavras não são minhas, eu li em algum lugar. Mas vieram como um sopro suave de docilidade e resolvi escrever. Se o texto não saísse bom, ao menos a epígrafe valeria o fracasso. Por que com o tempo, nos impusemos limitações, encontramos defeitos em nossos corpos, como se houvessem amputado nossas partes mais significativas. Passamos tempo demais encontrando motivos para engaiolar nossa felicidade nos privando de sentí-la por este ou por aquele motivo. Nosso futuro parece ser o maior empecilho. Confundimos felicidade com satisfação, afinal, ela só irá aparecer quando supridos nossos desejos. Esquecemos que desejos não sobrevivem ao tempo. Sonhos sim. Trocamos nossos sonhos por desejos traçados de imediato. A felicidade só será completa quando encontrados os objetos de nossa busca. E nos sentirmos preenchidos. Qual não é a surpresa quando, ao encontrar o que buscamos, vem outro vazio maior que o anterior para ser preenchido com outros desejos. Um caminho ininterrupto, consequente de nossas mentes receosas de acreditar no efêmero, de lhe atribuir algum significado. E caem desfalecidas gotas de orvalho a cada manhã, e a chuva lacrimeja uma aura de poesia escondida que vai se revelar na aurora ignorada de nossos dias. Não temos tempo para ficar perto de nosso próprio coração. Das coisas que amamos. De redescobrir o que realmente para nós tem significado. Um vento que  nos amedronta, um sol que nos ofusca, uma liberdade que nos prende em nossos lares reclusos. Podados de nossas asas, passamos a viver enquanto galinhas, amedrontados, esperando que deixem de nos amar a qualquer instante. O tempo vai passando e ficamos diferentes. Caem as plumas e o penacho colorido de nossa cabeça. Os vermelhos, os azuis, os verdes tornam-se um cinzento triste. E vem o silêncio: deixamos de cantar. E cortamos nosso seio até que apareça alguém com poesia o suficiente para nos dizer : "De agora em diante, ao abraçar você, o meu peito estará mais perto do seu coração". Lembramos de uma parte nossa chamada coração e talvez, com os olhos lacrimejantes, descobrimos que ainda com nossas limitações, haverão os sonhos para nos abraçar e nos transportar para o nosso mundo de dentro, e ali encontraremos a felicidade, ainda que tarde e a despeito de todo o resto...


terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Silêncios luminosos que dizem mais do que calam

Existem silêncios luminosos que dizem mais do que calam. O silêncio após a leitura de um livro, por exemplo. Não é que queiramos não seguir em frente. Queremos a pausa silenciosa do ruminar de algo que nos tocou de leve, roçou suave suas mãos em nossa face e nos embalou para dormir por muitas noites.Queremos o tempo necessário para lembrar das palavras que amamos, dos momentos em que choramos por nossa triste incapacidade de não poder invadir o reino das palavras e das histórias para salvar este ou aquele personagem. Ou para sentar-se á sombra de uma árvore e observar de perto os acontecimentos. Na verdade, toda leitura é um pouco desse sentar-se á sombra de uma árvore para escutar, ouvir, calar fundo para transcender a nossa realidade. A literatura serve ainda para esta inutilidade de não poder ser contabilizada, de poder ser sentida, de poder nos falar baixinho, ora gritando suas verdades ou ficções. Melhor ficção do que mentiras. Se não aconteceu é mentira?! Não pode ser, a palavra mentira tem o poder de matar as outras palavras. As estórias que amamos estão na terceira margem do rio, no lugar onde as coisas não existem. E se nunca existiram, é para que renasçam a cada leitura, a cada suspiro, a cada...palpitar suave de uma releitura. Reler um livro que amamos não é se repetir. É dar uma prova de amor, sempre insaciável. O leitor tem o poder de um ritual mágico nas mãos. É dele a tarefa de arrancar os personagens do âmago daquele universo das coisas inexistentes para trazê-los á vida. E os personagens, nesse ritual arrancam-no de seu cotidiano e o carregam para aquele mesmo universo. Vida e ficção se misturam?! Sempre haverá espaço para dizer o não dito, para sugerir que as coisas podem ser desfiguradas e extraídas suas essências, dizer muito mais com seus silêncios luminosos. Quando a última página é virada, o livro nos faz companhia.  Mas há os desenhos, os seriados, as novelas, que são enfiados goela abaixo com seus estere
ótipos  intermináveis. A nossa "ração diária de ficção", como bem os caracterizou, Daniel Pennac no delicioso "Como um romance". E o autor conclui sabiamente " isso enche a cabeça como se enche a barriga, sacia, mas não fica no corpo. Digestão imediata. Depois nos sentimos tão vazios quanto antes."Descobri outra expressão que tornou-se uma de minhas favoritas: "coração de tinta". A verdadeira questão não é saber se tenho ou não tempo para ler. É descobrir se posso me entregar ou me oferecer a felicidade de ser leitor...


sobre acasos e arrebatamentos

Uma noite qualquer encontramos nosso destino descompromissadamente pelas ruas, a observar o vazio. Perguntamos o que ele faz ali e ele diz que está a esperar por nós. Que ainda vai meter o bedelho em nossa vida quando não soubermos o que fazer, para silenciar nossas angustias ou para simplismente nos silenciar.Outro dia imaginei que seria bom ir ao teatro.Você descobre que é preciso alguns instantes de lazer quando sua mente está prestes a entrar em erupção. Convidei dois amigos. Ela, ansiosa pela apresentação que viria a seguir. Ele, curioso pelo que seria um teatro afinal e o que atraia as pessoas a um local tão inóspito quanto misterioso.Encontraram na porta do teatro outro amigo, acompanhado de sua irmã. Havia uma música ora suave, ora explosiva nos acordes e sem que houvessem sido avisados, um grupo toma conta do palco. Seu nome não poderia ter sido outro: "Gênesis". Sim, a música parecia ter nascido com eles, dentro deles, brincava em seus corpos tal criança travessa a ensaiar os passos. Tudo parecia tão perfeito, os encaixes entre melodia e os ecos dos corpos dançantes, que tivemos a impressão que...na verdade, não conseguimos exprimir o que sentíamos, tamanho êxtase que nos encobria. Fomos carregados para o mundo das lembranças e sensações de coisas que nem sabíamos ter vivido. Não podíamos olhar para os lados. Nos haviam hipnotizado.Um universo de cores, sons, ritmos e nós estávamos ali, embasbacados, absortos, entregues ao que de melhor a música tem a oferecer aliada a dança. Definitivamente concordo com esta frase que li uma vez: "o que seria de nós sem o socorro das coisas que não existem?". Sim, porque as sensações que ali sentíamos nos traziam lembranças particulares que ressucitavam a cada instantes, em cada nota. Um ruído e um gesto e tínhamos á nossa frente o desligamento de nosso cotidiano. Até não restar mais nada daquilo que conhecemos. Somente lembranças e sensações indescritíveis. Até que os olhos ficaram marejados e nos olhamos aos poucos, depois do último passo dos dançarinos. Não éramos os únicos. E o destino, este que eu havia encontrado outra noite,  sorria de leve, aplaudindo de pé. E nós não sabíamos que estávamos tristes.Diante da beleza só nos resta entristecer. Toda beleza traz consigo um pouco de tristeza, porque as coisas que amamos, as nossas lembranças um dia têm de morrer para morar na memória. Descobri que para isso existe a arte. Para ressucitar os mortos que há dentro de nós e trazê-los a dança interminável da saudade. Saudade, como dizia o Rubem Alves, é o revés do parto. é arrumar o quarto para o filho que já morreu. Quero arrumar o quarto de minhas lembranças, para que, quando chegarem, possam embalar meu sono, olhar pela janela e contar histórias de um tempo que já se foi e que, se não existe mais, é para renascer a cada instante em que o acaso nos encontrar distraidos...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

sobre amores e linhas tênues...

De vez em quando, acontecem sensações que não conseguimos explicar, se por encontrar a morte em cada esquina ou a desilusão à espera com seus olhos devoradores. Misteriosamente, aprendemos que, de vez em quando, não devemos arriscar, porque podemos não suportar as feridas abertas que custam a cicatrizar. Até que, apenas um olhar, um sorriso e uma tez suave nos arrebatam. Sim, arrebatam. Ficamos sem escolha diante do deus do amor. Não há como negar que nossos olhos não são os mesmos e a nossa respiração de repente deixou de ser tranquila e os batimentos estão à beira de um ataque cardíaco. Da outra vez, nem queremos lembrar, foi difícil. O vento vem depressa e a verdade é mais forte. O pouco tempo pode valer a pena. Queremos possuir o poder de cristalizar o efêmero, de, congelar o instante, de ...tanta coisa que nem sei mais... O silêncio é preeenchido pela ausência, os suspiros se tornam frequentes, os lábios severos secando aos poucos e a retina ofuscada pela luz do último luar procura se restabelecer aos poucos. Até que chega o instante do reencontro, braços preparando o abraço de um dia que não deveria ter terminado e a luz de um dia que não deveria ter se tornado noite. À escuridão, os amantes se encontram no olhar do outro e  o silêncio fala por eles. O som dos grilos silencia e as estrelas incendeiam em suas casas. A lua torna-se maior e o espectro de um  crepúsculo tímido vai esvaindo-se aos poucos. O beijo une dois corpos para se tornarem um só até que distanciam-se bruscamente, não são mais os mesmos.Perderam um pouco de seu olhar, de seus lábios, de sua cor nos contornos do outro, e deixaram de ser apenas si mesmos. Carregarão um pedaço de si até que a linha tênue que os une vá enfraquecendo e deixando de existir. E um deles, se observarem com bastante atenção, trará nas mãos um barbante, que  sairá das mãos deste até o peito do outro.E se algum dia o deixar cair, esta linha se desfaz em muitos pedaços . E de cada pedaço jorrarão lágrimas de sangue. E todo o sangue que dali verter cobrirá os pés dos dois, que se olharão confusos, até não mais entender que os olhares e sorrisos e aquilo que os unia jaz ali, no chão, aos pedaços. Saem dali, distanciando-se aos poucos até retornarem correndo e interromperem os passos a poucos metros de distancia. E olharão nos olhos do outro e desejarão que suas almas caminhem juntas pela eternidade, e encontrarão um perfeito estranho, de um amor que se foi, apenas a linha e o sangue fenecendo ali aos poucos. Uma lágrima e um suspiro e de repente um soluço é cortado por um gesto. Um dos amantes se aproxima e retorna em seus olhos o brilho de antes e num beijo, único resquício de um desesperado, procura eternizar seu amor que reluta em se despedir. Até acordar de um sonho repleto de lágrimas no colo e perceber que ... 

domingo, 12 de dezembro de 2010

sobre palavras e conformidades...

Somos adestrados ao conformismo. Sempre há uma autoridade que nos impede de sermos quem realmente desejamos. Por vezes um senhor chamado tempo torna-se sinônimo de carrasco. E queremos ficar numa boa. Mesmo que estivéssemos doentes, mesmo que nada estivesse legal, que tivéssemos nossos sonhos castrados por uma desilusão ou  nossos anseios decapitados sem qualquer escrúpulo. Engordamos, emagrecemos e podemos estar falidos. Estamos fadados ao conformismo. Dizem que devemos acreditar quando as circunstâncis não nos são favoráveis. E quando elas forem, que diferença faz se podem passar despercebidas ( por causa de nosso conformismo). Nos habituamos a ler o que os outros escrevem sem relutar, e a deixar que as palavras nos levem a caminhos estipulados, não nos permitimos voos mais amplos. Não quero leitores. Quero desbravadores. Ou meus textos seriam tão ruins quanto (de)formadores de expressões rasas e sem sentidodo algum. Não para ler apenas, mas para tornar significativo o lido, não por minha causa, mas por que nem sou eu na verdade quem escreve. As palavras é que vão se depositando no papel. Eu só faço é redigir. Pensam que tenho liberdade? Enganam-se. A qualquer momento, quando tento me desviar do que é preciso ser dito, as ideias embaralham e não escrevo mais nada, que é preciso apenas ouvir. Penetro surdamente no reino das palavras onde estão os textos que aguardam a escritura. Mas não sou eu quem escolho o tema, tampouco sei onde vai dar, apenas obedeço. Palavras carascas, linhas traçadas de acordo com o que querem dizer. Quem sou eu dentro do texto? De vez em quando consigo distraí-las e escrevo algo que me convém. Modifico aqui e ali. Mas não posso mudar a essência do que já foi dito. Parece-lhes cômodo? Não o é. Depois de escrever não posso esconder numa caixa longe dos olhos de qualquer pessoa. Tenho que exibir, mostrar (não que eu queira, são as palavras que pedem que eu o faça.). Tenho receio de que um dia não mais me sirvam para preencher uma folha em branco com suas matizes. E me alio ao tempo, digo que não o tenho. Que estou doente, falido, que engordei ou que emagreci. Para poder escrever. Somos adestrados ao coformismo. Nem sei porque disse isso. Terminei sendo adestrado também. Quero um tempo que não seja carrasco, que me liberte de minhas frustrações, que me dê liberdade além daquilo que as palavras querem dizer, que eu possa dizer. Mas por enquanto gosto do que elas têm a dizer. E mesmo que aconteça tudo o que falei, estarei numa boa, por aderir a um conformismo bom, daqueles fingidos. Daqueles quando se começa um texto generalizando um sentimento particular para depois falar de si. E colocar a culpa em outra coisa (até no tempo), para poder dizer o não-dito. E fica sendo melhor. As palavras me adestraram. Espero que elas não esqueçam que o adestrador é muito mais treinado que o adestrado já que este só faz o que lhe pedem se obtiver algo em troca. Prefiro ser treinado para descobrir suas entranhas, para poder falar mais a fundo, descobrir os rios e contornos que as constituem e desbravar florestas inteiras. Este conformismo eu quero sim. E que continue comigo por muito tempo...  

sobre os contornos maternos: matizes e cacos

Que me perdoem a repetição mais amo mesmo é o pôr do sol. Um emaranhado de cores que se confundem e decidem ir definhando aos poucos para dar lugar a outras cores que ficam impregnadas da última cor que se foi e reluta em sair do espetáculo mesmo assim. As mães são um pouco como essas cores que se confundem com nossas matizes diárias. Trazemos conosco a flor da delicadeza materna (ou geniosidade, pois tenho amigos cujas mães possuem temperamento sempre a beira de uma erupção) e os frutos de seus eternos cuidados, desejando nos carrregar vida afora, numa constante de proteção e carinho. A primeira vez que assisti o vídeo, confesso que lágrimas me vieram aos olhos...do coração. Este que se machuca em procurar amores pelo tempo infinito, mesmo sem que pecebamos, pode contar com esta figura alada,que tendo cortadas suas asas, cobre-nos com seu carinho e nos guia (até pela distância). Um pouco de mãe levamos conosco e um pouco de filho que pietá nenhuma consegue esculpir em seu significado. Música breve, lenta, suave que transforma as explosões adolescenciadas pela vida, entidade pacificadora que transborda em seu espírito até confudir-se com o nosso. Comecei este blog citando o termo "lágrimas de sangue". Este dito as mães compreendem.  Os ouvidos á espera de um sussuro, um chamado; os olhos atentos á um sinal para nos levar no colo e nos contar uma história, que vai se descobrir ser a história de nós que escutamos, e rimos, choramos, lutamos e nos deseperamos de uma esperança quase inesgotável de profundo acalento e traquilidade. Se a vida pode parecer cruel, temos um colo em que nos abrigar e um sorriso sempre á espera. Carregamos um pedaço delas em nós tanto quanto elas carrregam um pedaço de nós consigo e nossa presença é tão forte nelas quanto a delas em nós. Queria que este texto fosse uma declaração de amor, de amor correspondido. Resolvi que não preciso remeter bilhetes. Um gesto, por mais insisgnificante que nos pareça pode bastar. Hoje queria poder dizer o quanto amo minha mãe, mas a verei somente após o ano novo. Posso dizer que é desnecessário que eu o faça. A simples presença e o silêncio compartilhado, as perguntas sobre como tenho passado e indagações constantes sobre minha magreza, sobre se tenho me agasalhado bem no inverno, sobre se estou feliz já são uma resposta do tipo "sim, eu sei que você me ama, mas coloque mais roupa, que vai chover". As mães sempre fazem esta constatação. Aliás acredito que felicidade para elas é quando precisamos coversar, pedir conselho. Outro dia uma amiga minha disse que a mãe dela era uma verdadeira máquina de pedir conselhos. Do suco de laranja ou maçã à cor do pote de água do cachorro e o tipo de pazinha que ela deve utilizar para recolher o lixo que o cachorro do outro lado da rua ironicamente num dia de chuva torrencial resolveu revirar e estraçalhar na sacola em frente à sua casa. Fiquei sem palavras. Tem coisas que só o instinto maternal revela. E mesmo exagerado, refelte uma ânsia em tornar nossos dias mais seguros e nosso futuro mais feliz. E como as fizemos chorar. Não é que queiramos, mas elas choram mesmo assim. Lembram que falei que amo lágrimas por serem gotas de lágrimas cristalizadas na aurora de um sorriso? Pois bem, aprendi isso com minha mãe e sem que ela dissesse palavra alguma. Que possamos ao final da leitura deste texto olhar para nossa mães e dizer como nos sentimos por tê-las por perto. Elas irão nos olhar com aquele olhar de"eu sei", mas ainda terá valido a pena, pois nem a alma é pequena e os braços estarão sempre á espera. E se deslizarem alguns filetes de água por entre as curvas de seu rosto até tranbordarem num sorriso contido, podemos olhar para a rua e sentir que vai chover e será a nossa vez de lembrar que assim como ela, também estaremos sempre por perto... 


sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

sobre músicas e corpos

Existem momentos em que o corpo fala. Quando uma música passa a fazer parte dele, ela preenche os contornos deste até que ele se torne outra coisa. Solto, livre de sua condição banal diária de nos conduzir e representar nossos gestos e comandos, o corpo se solta, cria uma harmonia impensável e segue o ritmo sem comando algum. A música o provoca e ele responde. Para saber se uma coreografia é bem efetuada, é preciso perceber os intervalos, as provocações,as sutilezas emaranhadas. Após a apresentação, somos arrebatados para o mundo das formas e até nos esquecemos por uns instantes que nem sabemos dançar, não importa, o que vale é outra linguagem desconhecida, oculta, misteriosa, que seduz como a música que deixa de fazer parte de um som apenas para fazer parte de nós mesmos. Se você me perguntar o que eu entendo de dança ou coreografia, ficará decepcionado. Nada sei além do que sinto e defendo a música como forma de nos libertar das tensões diárias, para nos transportar à outro mundo, muito além dos muros de nossos cotidianos. Que bom que existem momentos assim, seja uma festa ou uma apresentação artística, temos nossos anseios preenchidos de tal modo que não sabemos explicá-lo. Saimos outros, diferentes, transformados pela poderosa melodia que irá repercutir por algum tempo até ser preenchida por outros caminhos...Boa mesmo é a coreografia sutil, que faz parecer fácil, onde os dançarinos brincam ao encenar seus passes de dança. Bom mesmo é quando saímos com a impressão de que a música foi feita para aquela dança e não o contrário....

Preciso escrever um bilhete...

"No último Natal, te dei meu coração mas no dia seguinte, você se desfez dele. Esse ano, para me poupar das lágrimas, eu o darei a alguém especial! Já aprendi minha lição, me mantenho distante mas ainda te olho. Diga amor, você me reconhece? Bem, já passou um ano, não me surpreende. Feliz Natal, eu embrulhei e te mandei com um cartão que dizia "Eu te amo", de verdade. Agora sei que idiota eu fui mas se me beijasse agora sei que me enganaria de novo. Talvez ano que vem, eu o darei para alguém, eu o darei para alguém especial..." Lea Michele e Cory Monteith - Last Christimas

Recebi esta mensagem pela manhã. Apareceu  do nada em minha caixa de emails. Está bem, não foi do nada, se eu recebi foi alguém que remeteu. Você deve estar se perguntando o porquê de eu redigir o texto com esta cor. Bem, é para lembrar que o último natal destes dois não está muito diferente do natal de muitos por aí. Na verdade,me chamou atenção o modo como foi apresentada a desilusão amorosa. Ela pode ter sido ruim, mas "se me beijasse agora sei que me enganaria de novo". Essa coisa enigmática chamada Amor ( é assim com maiúsculas que parece se apresentar), que nos traz tantos desatinos, é algo que buscamos desde cedo, sem o perceber. Da última vez foi muito doloroso. Parece sentimento carasco, sádico, irônico. Talvez por que não amamos de verdade a coisa que se ama. Coisa sim, pois o que amamos é uma imagem. A imagem que temos daquilo que se ama, que nem ousamos nomear, diferente daquela que conhecemos depois do  estado inicial de "apaixonamento". Um olhar diferente (pode ser cisco no olho aquela piscadela desenfreada), um sorriso nos lábios no estilo monalisa, que não se sabe irônico ou sutil. Um gesto delicado ao dar de ombros, um mexer nos cabelos de leve, tudo é sinal. A pessoa poderia estar ali parada, sem fazer absolutamente nada, mas a moldura que colocamos no retrato parece falar mais alto que a imagem inteira. E estamos repletos desse sentimento arrebatador. Sem perceber nos atiramos num abismo sem volta, sem saber no que vai dar. Só pode ser a pessoa certa, nossa intuição não mente, o coração está certo. Até descobrirmos que nosso coração parece sofrer de Alzaimer, não recordando dos fracassos anteriores. Nosso senso de direção amoroso é tão cego quanto...o amor. Que parece se reinventar e nos faz cair em ciladas cada vez mais ardilosas. Somos idiotas, nos deixamos enganar. Adeus a este sentimento idiota que brinca com nosso sentir e nos deixa abobados. Vou começar agora mesmo uma rebelião contra ele, e não venham acusar-me que estou frio. Quero todos os meus conhecidos contra esta coisa desleal. E os desconhecidos também.Coração, você está demitido. Será o nosso lema. Começemos agora. Pensando melhor, quem sabe ano que vem,ou no outro... primeiro preciso escrever um bilhete dizendo "Eu te amo" de verdade. Talvez ano que vem eu  o darei para alguém, eu o darei para alguém especial...

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Hoje parei em uma rua repleta de gente. Mas ela estava vazia.Passei por meus lugares favoritos, mas eles não me diziam coisa alguma.Assisti a um de meus pores de sol favoritos (à esta altura nem sei mais se esta palavra leva hífem, não importa agora...).O sol estava lá, exuberante, adormecendo aos poucos. Tive vontade de chorar, mas as lágrimas relutavam em sair. As águas do rio em que encontro inspiração haviam secado. Levaram uma parte de mim para longe. A música não faz mais sentido, sinto-me tão vazio. À mesma melodia que antes eu escutava, agora faltam -lhe acordes, desafinam os tons e fraquejam as notas. O maestro é o mesmo. A música está sendo tocada da mesma forma. Terei mudado eu? Ainda não sei, só sei que quero silenciar. Estou grávido de ausências e a solidão é ainda maior quando não se tem a si mesmo. Algumas das partes mais significativas de mim estão distantes, alguns dos ouvidos mais falantes e lábios silenciosos também. Sobrou apenas o eco dos lugares que já foram. Que já falaram. Sussuraram. Silenciando aos poucos, emudeceram. Hoje percebo que não tive tempo de me despedir direito. Na  verdade, nunca teremos tempo suficiente. A pouco tempo atrás, perguntaram o porquê de eu sorrir com tanta frequência. Não soube responder. Apenas sorri, desinteressado nos motivos. Não me importam os motivos. Já disse o mestre Caeiro, a rosa não tem porquês, floresce porque floresce. Acho que é mais ou menos isso. Ou fica sendo, que é assim que eu lembrei agora. Os textos que eu li de repente ficaram vazios.Livres de sua fluidez, nada restou da catarse que me inspiravam. Repleto de ausências. Um dos momentos em que me senti mais próximo do vazio.  A Tristeza que me envolve. Esperem, está vindo uma lágrima. Agora sim, preciso silenciar por completo. É o que me resta. Aos amigos distantes, não fiquem preocupados, quis homenagear de alguma forma as pessoas que me fizeram ser o que sou hoje. Este ser incompleto. Por ter  deixando partes de mim pelo caminho. Se hoje sou um emaranhado de cacos espalhados mundo afora, é porque decidi que algumas partes de mim mereciam outros que soubessem cuidar delas melhor do que eu. Se digo que estou triste, é por não tê-las comigo. Há pouco tempo, descobri que minhas partes passaram a se confundir com as partes daqueles que cuidavam delas. Isso me deixa um pouco feliz, sabe. Saber que a  saudade confunde os olhares e ouvidos distantes. Hoje á tardinha vou ir ver o crepúsculo. Alguma coisa me diz que, se eu deixar cair de leve uma lágrima de saudade, haverá junto dela o resquício de um sorriso.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Estou num quarto escuro. Como utilizam estas metáforas, ainda não entendi o motivo. Quartos escuros não me assustam e conheço algumas pessoas para as quais a própria claridade é que são elas.Viver em meio aos holofotes deve ser muito chato. Outro dia assistia um canal de fofocas sobre celebridades. Uma mulher saiu na rua e suas roupas não estavam de acordo com o ambiente. O cachorro deu três latidos. A mulher voltou para casa. E isso (pasmem) virou notícia.  Talvez para que nos esqueçamos de nós mesmos. Fazemos as mesmas coisas e soam tão banais. Mas as estrelas, ah estas nunca são banais! Nunca entendi o porquê desta definição. Estrelas vivem enclausuradas?! Estrelas suplicam um pouco de privacidade? Não creio que assim seja, pois todas as noites estão ali, além de nossas janelas, depois do quarto escuro, uma luz tênue que vai se expandindo aos poucos.As verdadeiras estrelas, astros dignos de serem observados jazem no mais profundo abandono. Para elas não temos tempo. Não importa que formem desenhos e ofusquem a noite escura lançando seus braços no abismo. Fugimos do abraço. Não queremos cumplicidade com algo que não seja banal. Coisas que se transformam, se reinventam a cada noite, aparecem novas em outros corpos cristalizados e móveis. Espelhos do abismo. O abismo (sempre a figura de algo misterioso) que não sabemos onde vai dar. E o mais curioso é que todos temos grandes abismos em nós, cada vez mais infindáveis. Lugares aonde nunca fomos, sensações que ainda não sentimos. Preferimos o seguro. Conformamos nosso pensamento a obter algumas certezas. Cultivamos a erva daninha das convicções e desistimos tão facilmente da matéria de que somos formados. Por acreditar talvez que a estrela de outro brilhe mais forte. Quem é que criou essa escala de ofuscamento? Quem é que determina o quanto eu devo caminhar? Passamos tempo demais vivendo a vida dos outros. Quero a liberdade de encontrar os jardins escondidos nas coisas que amo. E encontrar dentro de uma fonte uma pequena centelha de luz. Cuidar dela como se fosse minha para descobrir que, com o passar do tempo, nem saberei ao certo se cuidei daquele fagulho como outra coisa ou se era um pedaço de mim mesmo, pois ela já estará perdida em um dos abismos que me constituem. Ainda prefiro lançar-me no abismo de mim mesmo aonde roupas ou latidos não importam. Quero mergulhar no silêncio de mim, para encontrar algo próximo. E se for outro, que seja o outro que é parte de mim e eu vá assim aos poucos encontrando os cacos que perdi pelo caminho. Pode não render notícia alguma, mas ao menos terá valido a pena.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Tem dias que dá vontade de sumir. Pegar uma mochila ou nem isso, que é preciso deixar tudo pra trás, adquirir nudez até de pensamentos para começar a ser outra coisa que não esta puramente banal que representamos pelas ruas. De vez em quando me sinto mais próximo da morte, ela estende seus braços em minha direção até eu quase me esquivar, mas não o faço, não sei o porquê. Me sinto muito perto de alguém que contempla o abismo. Pensamento suicida, dirão alguns. Não é suicídio. Diante do abismo precisamos silenciar. Os ecos não podem propagar qualquer som. Existe todo um ritual das coisas que podem ser ditas para ecoar no vazio. Depois de ditas elas se emaranham ao não-dito, nos intervalos daquilo que relutamos em escutar. Andei pensando muito em abismos profundos, mares bravos e tempestades avassaladoras. Descobri que a brisa suave e o sussuro podem assustar muito mais. Algo que vem delicadamente e se deposita ao nosso lado e sorrateiramente repercute nos vazios da alma de quem  escutar. De início ignoramos, alegando não ter a ver conosco. As palavras podem dizer qualquer coisa que continuamos sendo os mesmos.Ledo engano.É o caso da poesia. Disseram que os homens haviam perdido a capacidade de se encantar com o belo. Ora, quando falta essa capacidade,subtraio uma parte de mim mesmo. Nossa essência é o que há de mais bonito. Claro nem todos a pretendem encontrar. Melhor mesmo é deixar num quarto escuro, longe das janelas de entrada de nossa casa.Limitar ao máximo aquilo que somos que então fica mais fácil de entender. Seres reduzidos são melhores rotulados com nomenclaturas.Não é preciso buscar nas entranhas, espremer a laranja até a casca e sorver o suco mais oculto.Passamos tempo demais nos reduzindo a ser uma coisa só. Quero libertar os muitos fragmentos que me formam para que juntos eles comemorem. Quero uma união de vários eus e de eu nenhum. Se não der certo, fujo de mim mesmo pra viver numa folha de papel em branco dentro do livro mais misterioso que houver, até que me descubra novo, renascido a cada instante.E volto de vez em quando para contemplar o abismo, que não quero passar a vida toda pensando nessas coisas...   

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Devaneios e breves contornos

Se um dia perguntarem quem eu sou não saberei responder.E se perguntarem o que penso acerca da vida, terão que me repetir a pergunta várias vezes em muitos momentos.Se me indagarem sobre a felicidade, direi que não é preciso saber sobre ela, que enquanto pensamos ela se esvai como o vento por entre as folhas e cores do orvalho matinal.Se quiserem saber o que penso das pessoas, direi que não há como definir uma coisa que foge de sua própria definição e que torna-se maleável ao sabor do vento e das circunstâncias. Parece meio estranho escrever sobre dúvidas. Aprendemos a distribuir certezas e aceitar aquelas que nos foram transmitidas.Prefiro levar meus olhos para passear. Mas faz tanto tempo que eles não tiram férias. Demoro para me desligar de mim e como Clarice que insistia em escrever para livrar-se de si mesma, escrevo para entender o que realmente penso. Se é que realmente penso alguma coisa, já que fico dizendo que não temos certeza alguma, revelar alguma seria me contradizer.Mas acho até que posso me contradizer, afinal de contas, escrevo para mim mesmo, para descobrir a matéria de que sou feito. Uma vez cheguei a acreditar que era humano. Mas ás vezes sou meio bicho,o instinto levado a sério(já tentaram adestrar meus pensamentos, sem êxito, pois nem eu mesmo os consigo controlar...).As vezes acho que sou todo sentimento. Outras que não sou coisa alguma, que quando a gente está em frente ao pôr do sol nao se deve pensar nada. Todas as vezes que procuro pensar em quem sou busco o pôr do sol.Acabo não me definindo e saio de lá menos esclarecido ainda do que quando cheguei.E me transformo noutra coisa. A todo instante.Só ás vezes percebo isso.Na verdade, descobri que todos somos mais de um. E que baderna e confusão dentro de nossas vidas centradas saber que carregamos conosco várias personagens.Não tenho nenhuma além de mim, você pode dizer. E o que dizer das vezes que você não se reconheceu diante de suas atitudes?Desculpa, falei que não iria semear certezas. Pode duvidar se quiser, as outras partes que te constituem continuarão existindo.Agora deem-me liçença que das outras vezes já falei demais, dessa vez só quero o direito a devanear. Até que não foi muito...

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

reminescencias esquizofrenicas(parte três)

Carambra, que coisa mais linda essa. Vou mostrar pra todo mundo. Puxa vida, como assim não posso? Mas é tão bonito, tão simples e puro. Pois que seja. Desculpe ter te deixado aí sozinho. Agora vou ter que ir. Tenho pressa. Minha casa está  me esperando. Tenho de ir para a praia, desculpe se não posso conversar mais um pouco, nossa, e eu que fiquei aqui falando o tempo todo e você nem teve o tempo de dizer teu nome. O meu é...Espera guri, já vou.O menino está me chamando, aquele da concha, do quarto escuro, dos espelhos e da luz fraquíssima. Descobri que a luz está se tornando mais forte. Não posso perder tempo. Ah, lembra que falei de uma caixa em que guardo minhas inspirações.Na verdade, não é só isso. E nem é uma caixa de verdade. É uma pequena concha. E nela está um menino. Ele quem dita os textos que vou redigindo. De vez em quando discuto com ele. Uma vez encontrei esta concha na praia e resolvi entrar nela, descobri um quarto escuro e uma porta. Atrás dela, espelhos e cada caco refletiu uma parte de mim.Um menino diferente em cada pedaço.E fiquei em silencio. Descobri que a concha é a fonte de minha inspiração. O menino tem muitas faces. E sou apenas eu em cada contorno aquoso de minha existência. Os espirais que me formam é que me auxiliam nas tessituras. Os diálogos comigo mesmo é que se expandem para a superfície do papel.Agora deem-me licença que vou entrar na concha. Tenho que conversar um pouco, faz um tempinho que a gente não se fala.Voce deve me achar louco, entrar numa concha, falar com um reflexo de si mesmo, entrar no mundo das palavras. Pois saiba que todos temos uma caixa de inspiração escondida em algum lugar. Levou um tempo considerável para eu perceber que as linhas do mar e do oceano banhadas pela luz e pela areia (no mundo da ficção tudo é possível, ou quase tudo), coisas que formavam os contornos de meu rosto foram se transformando aos poucos num pedaço de mim que resolveu sair e percorrer outros mundos. Depois de viajar muito ttransfigurou-se a minha essência em concha e para que eu a reconhecesse ela teria que se transformar em algo que eu pudesse interpretar. Uma esfinge estaria completamente fora de moda. Até que um dia resolvi procurar-me fora de mim. Encontrei uma concha e o resto, bem, você já sabe....